Pelas frestas, ela olhava curiosa com aqueles olhos cor de madeira, carinha de anjo que me fazia perder neles. Ao seu lado, eu esquecia do tempo e me divertia ao vê-la. Curiosa, queria saber pra onde estava indo… inquieta deixava vazar seus gemidos. Dentro de uma caixa nas mãos de uma garotinha que não sabia do vínculo de amor que estava sendo formado naquele exato momento. Como impedir? A permissão para ficar com a nova companhia que foi aceita e instantes depois já tinha conquistado a todos, já era a mais nova integrante da família.
Jauly, minha jaulynha, chamada assim por causa do apelido da dona de sua mãe. Pareço criança ao me lembrar dela, do seu sorriso… Eu sempre dizia que ela sorria para mim. Ela sempre estava contente, o que tanto a alegrava? Saudades… Lembro tanto de quando ela chegou em casa, trazida pela minha irmã, eu não via a hora de amanhecer pra contar pras minhas coleguinhas de escola que agora tinha uma cadelinha.
Basset ou “Salsichão” como costumavam chamar sua raça, porque ela era cumprida, marrom e não crescia. Preguiçosa, odiava tomar banho, passava o dia inteiro trancada na sua casinha só pra poder fugir do banho.
A Jauly fez parte mesmo da minha família. Eu me recordo das vezes que eu, tristinha, me sentava no quintal e logo ela vinha com aquelas dentinhos inferiores à mostra. E eu ficava contando minha vida, minhas amarguras e ela me "ouvindo" como se me compreendesse bem…
Levava broncas por causa dos seus exagerados latidos. Para ela não era. Ela queria mostrar a gratidão que sentia pela nossa família e fazia de tudo para nos proteger. Quantas viradas de ano passamos aborrecidos com seus latidos por causa dos fogos… O que ela queria e não entendíamos era comemorar também.

Mas um dia como tudo nesta vida passa, a minha Jaulynha passou. O primeiro sintoma de sua velhice foi a maneira como se isolou e a perda de uma parte da visão. Chamávamos, ela vinha alegre olhando para outra direção. Logo desconfiamos, mas nada podíamos mais fazer por ela, nas nossas contas, ela já estava com 12 anos de idade. Uma vida ao meu lado… Minha pequena companhia preferida!
Foi muito triste o dia que ela partiu. Primeiro não quis comer nada pela manhã, estanhei, se tinha uma coisa que a Jauly jamais recusaria era comida. Naquela manhã, o jejum era o melhor para ela.
Eu lhe ofereci um leite morno, ela aceitou. Fiquei feliz, porém instantes depois, ela vomitou tudo.
O último olhar, o último adeus, o último encontro. Ela partiu no final da tarde e acostumar-se sem seus latidos foi bem difícil. Eu imagino todas as palavras que se ela pudesse falar teria dito. Ela me olhava intensamente como se algo quisesse dizer…
Estou lendo um livro que me inspirou a escrever sobre ela; VIDAS SECAS, de Graciliano Ramos, o autor conta sobre a cadela BALEIA, e detalha sobre as sensações que ela teve quando estava pra ser sacrificada por seu dono. Baleia tinha muitas feridas iguais a de Jauly, sofrera muito. Seus donos preferiram sacrificá-la. Nós escolhemos cuidar da nossa pequena até o seu último suspiro. Neste momento, a saudade, a emoção que renasce ao lembrar dela, me faz querer lhe dá um último abraço !