Vou te contar…

… Lembranças, Pensamentos, Saudades e Indagações !!

22/3/08

Mirins…

                    

Saia curta, barriga à mostra, brilho, muito brilho nos lábios. Maquiagem um tanto marcante para o rosto angelical. O corpo ainda tem forma infantil, os olhos buscam a sedução e encobrem a inocência da pouca idade.
Elas não têm lugar fixo. Qualquer lugar é lugar, se afinal depois de alguns minutos o que terá importância é o dinheiro, significativos trocados que lhes sustentam.
A noite é o seu tempo. Elas ganham a vida na noite. Prostitutas mirins, em sua maioria, sequer terminaram o ginásio.
Sexo seguro nem sempre. Horas de prazer que valem uma doença e porque não, várias? As chamadas DST, doenças sexualmente transmissíveis, estão escritas em seus cadernos de escola, mas aqui na rua, elas não assustam mais.
O guarda passa, olha, passa de novo, “mexe” com elas, mas é o carro de trás que pára e “compra” o programa. Instantes depois elas são deixadas no mesmo ponto como se nada tivesse acontecido, mas é no silêncio que elas escondem o sexo agressivo daquela noite e ainda por cima sem prevenção. Essa noite ele desprezou a camisinha e lhe ofereceu um pouco a mais pelo “privilégio”.
A prostituição infantil sustenta milhares de lares em todo o Brasil. É debatida no plenário para regularizá-la como profissão. Novidade? Não! Também não, falar que o Ministério do Trabalho e Emprego já até criou apostila que ensina a ser prostituta.
Esse parece ser o caminho mais curto. São crianças, não têm e jamais terão infância. A profissão deixará marcas profundas impregnadas em sua pele, alma e corpo.
Escola, a essa altura do campeonato, parece algo inalcançável. Se ao menos seus pais tivessem lhe dado uma condição melhor, tivessem ao menos um emprego para nada lhes deixar faltar, isso seria diferente. Absurdo não? Afinal, que país é este?

criado por taisgomds    16:15 — Arquivado em: INDIGNAÇÃO

O Sertanejo

                                  

Mãos calejadas, pés feridos pelo solo quente, roupas surradas… O rosto bronzeado pela exposição diária ao sol expressa cansaço, marcas de dor e sofrimento. Nos lábios, o sorriso tímido e amargo disfarça descuidos dentários. Na garganta, um grito preso, um apelo, um pedido, um socorro…
O trabalho começa antes mesmo de o dia nascer. Chapéu de palha na cabeça e enxada nas mãos, o galo já cantou, o céu azul ainda escuro não promete chuva. Na cozinha, a mulher já levantou e o cheiro de café exala na casa inteira. É hora de começar, um beijo na mulher e nos filhos pequenos que lhe desejam sorte para o dia. Da terra vem o seu pão de cada dia, por vezes o suor mistura-se com as lágrimas de um trabalho exaustivo de mais de 12 horas. É hora do almoço, o sol queima a pele, ele avista o filho mais velho trazendo-lhe a marmita, nada de surpresas, ele sabe exatamente o que tem dentro; arroz, feijão preto com farinha, uma coxa de frango com alface… O filho espera o comer, senta-se do seu lado no chão e observa o pai faminto comer, ele come rápido, tem pressa, tem muita terra pra lavrar, gados pra cuidar e a colheita começou… O filho lhe olha, sabe que amanhã será ele, olha para as mãos e os pés macios e os compara com os do pai, teme que os seus fiquem assim. Pergunta a ele quando vai começar a trabalhar no roçado, medo misturado a ansiedade de trabalhar, ajudar no sustento da família, uma responsabilidade escondida. O pai não responde, sabe que não tem futuro, quer que o filho seja doutor! Despede-se do filho e continua a trabalhar com mais força ainda, sonha com o futuro do filho, sonha que seu pai também tinha, mas não conseguiu realizar…
As roupas que lava pra fora já estão todas penduradas no varal, as crianças ajudaram-lhe trazer do rio. A cabeça dói, a trouxa era pesada e a gravidez de 6 meses já está lhe cansando… No ano que vem não terá ajuda, pois os filhos entrarão na escola pela primeira vez. O quintal já está limpo, as roupas recolhidas serão entregues sem passar, a energia não chegou a sua casa ainda, muito longe da cidade…
O sertanejo não tem opção, o solo lhe espera, a seca é algo que ele está sujeito, ele teme, mas sabe que se no inverno não chover suficiente, terá prejuízos em sua plantação. A idade já está chegando e precisará deixar pessoas em seu lugar, logo, seus filhos, mas como realizarão seu sonho de estudar? O sonho será adiado para a sua própria sobrevivência? Talvez. Ele não tem opção, a escolha já foi feita para a sua vida… Lágrimas escorrem em seu rosto ao pensar no futuro, tem medo, tem pena… Tem revolta!

criado por taisgomds    15:00 — Arquivado em: INDIGNAÇÃO

Não existiu…

                  

Hoje acordei com saudade. Saudade daquele frio que traz lembranças… Lembranças de um tempo que não existiu. Lembranças vazias, sem fundamento, mas cheias de esperança. Em minha cabeça eu imagino detalhes de um encontro que não existiu, mas que desejei profundamente que existisse.
No ar, sinto o perfume peculiar de quem nunca senti. Como sei que é o dele? Simples, imagino!
As mãos no bolso dentro da jaqueta de couro são para se proteger do frio… Os cabelos soltos esvoaçam como sempre, sorriso amarelo, pele rosada, algum sentimento não queria calar… Meus olhos denunciam, eu não consigo encarar, melhor continuar ouvindo o som das folhas que o vento empurra…
Silêncio! Tento me concentrar para reformular outros desejos, mas o barulho da chuva me atrapalha. Olho pra janela e mal consigo enxergar lá fora, as gotas viraram torrentes e não há quem esteja do outro lado esperando ainda. Esperando? Não! Não passou de um sonho ou quem sabe um pesadelo. Tenho minhas dúvidas, mas não tenho como saná-las. Ninguém pode me ouvir agora…
Saudade… Saudade de uma alegria que não senti, dos olhos que não vi brilhar a minha espera, das mãos que não consegui segurar pelo menos por um instante.
Lágrimas… De novo não! Sinto saudade até das que não derramei no momento em que lhes eram favoráveis. Se é que existe momento favorável para elas. Admito que não, mas gostaria de ter ao menos chorado para aliviar a saudade daquilo que jamais existiu.
O frio é o meu aliado, minha inspiração, meu amigo, meu deserto, meu inimigo. Traz-me esperança, saudade e raiva. A chuva fina voltou e agora molha meu papel. Como posso escrever novamente aqui fora?
Saudade da casa quentinha, do abraço apertado, dos pés tocando o chão impedidos por um par de meias. Das risadas, das piadas e até do jantar à meia luz. Convencer-me que esse tempo não existiu, me magoa menos, mesmo sabendo que permaneceu forte em minhas lembranças por muitos invernos…
Saudade de mim mesma e que o tempo não perdoa. Mesmo aquela que não existiu. Fragmentos de mim mesma dissolvidos nas folhas de papel, nas que não deixei a chuva molhar.
Luvas, chapéu e botas talvez sejam necessários levar, o frio parece intenso e a saudade mais ainda. O que me resta é conter, aguardar, viver e sentir novamente como se já tivesse sentido, apegar-me a força do tempo e suplicar para que me traga a saudade novamente, pois afinal sinto falta dela mesmo!!!

criado por taisgomds    14:03 — Arquivado em: CONTOS
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